terça-feira, 18 de outubro de 2011

Bem-te-vi(ra)

  Leitor. Você é paraplégico.
  Dois minutos para tirar qualquer movimento das pernas. Sua vida acontece do tronco para cima. Sua cadeira de rodas tem um adesivo engraçado. Você gosta disso. Não deixe-a conforme o texto segue. Ela só pode parar de existir - e rodar - depois do ponto final.
  Trilha sonora do conto: http://www.youtube.com/watch?v=n-jxbF_x40A (escute baixinha).
  Pronto?

  Os olhos eram bonitos. Donos de um azul quase cinza. Próximos à pupila, havia alguns traços amarelados. O olhar, suspeito. Não mau; profundo. Interpretá-los era uma tarefa complicada. Mesmo que parecesse, por vezes, superficial, como num sorriso de despedida num caixa de supermercado... por trás dele, existia uma longa história - por sua vez, nunca contada à ninguém. Observava as pessoas ao seu redor. Gostaria de saber o que se passava em suas borbulhantes cabeças. Era um moço de boas feições. Se fosse um pouco mais ajeitado, poderia trabalhar como modelo. Porém, preferia suas ondas loiras com frizz, presas numa bandana branca ou vermelha. Gostava de suas roupas de estilo meio hippie, meio nerd. E do seu cigarro costumeiro.
  Subiu para seu apartamento - graças ao horário de verão, na hora certa. Hora H: um filhote de bem-te-vi assobiava na varanda coberta por trepadeiras. Uma bagunça, uma bagunça. Os cômodos não eram separados por divisórias, a não ser a suíte e o pequeno estúdio. No chão, um bolo de camisetas amassadas, as quais usava para trabalhar. Algumas, até inadequadas para isso: estampadas com super heróis, quadrinhos ou desenhos de animais. Agora, usava uma de corte manual e mal feito. O dia era quente. A regata juntou-se ao bolo. Os livros faziam filas desengonçadas nas estantes. Na velha mesa redonda, restos de pacotes de fast-food, da noite anterior. Uma rede avermelhada atravessava a sala, de ponta a ponta. O relógio gritou: 17:40h. Finalmente.
  Rafael dirigiu-se para o estúdio. Era muito bom no que fazia. E raro. Mas escondia sua arte. Não por ser tímido: apenas queria saber das intenções das pessoas, sem que antes conhecessem suas incríveis habilidades. Queria saber dos pré-conceitos.
  Ser cadeirante nunca lhe causou desgosto - pelo contrário. Era absurdamente feliz com sua vida sobre duas rodas. Além disso, tinha melhores ocupações do que reclamar das circunstâncias. O que despertava um pouco de revolta - ou estranheza - eram os outros. Ou melhor, a ignorância dos outros. O pensamento bitolado dos outros. Então, preferia reservar-se para seus poucos e bons amigos. Aqueles que continuaram da infância. De vez em quando, conhecia alguns camaradas pelos cafés que frequentava. E os acrescentava. Também o fazia com as pequenas coisas que encantavam-no.
  Já havia gravado 5 discos, todos com 9 composições suas. Nada como seu violão, uma boa acústica, um gramofone. E voz. Apreciava muito seu timbre rouco. Conservava isso como o maior bem que possuía. O rapaz não possuía, simplesmente, tudo aquilo; ele era, sentia. Digeria cada música que compunha. Começou mais uma. Dia de criação. O passarinho ainda cantava. O sol descia. O entardecer crescia. As luzes ligavam, os carros corriam, as mariposas apareciam, os carteiros voltavam para casa, os recepcionistas voltavam para casa. O relógio tic-taqueava. Apesar de todos os barulhos, ele concentrava-se. Hora de compor.
  Um mundo inteiro em câmera rápida: apressado, preocupado, acontecendo, caminhando. E ali estava Rafael: sentado. Mas não esperando: cantava, ao som do violão e do bem-te-vi. Sentia a brisa que entrava pela fresta da janela de madeira. Fumava, de pouco em pouco, sua piteira cotidiana. Vestia suas roupas largadas. Não tinha sede de sobreviver; ele vivia: cada segundo, cada um. Com cada um dos seus membros - do tronco para cima.

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