Nina era de poucos amigos. Bastante encolhida. A menina nunca sabia o que dizer. Gostava de brigadeiro morno, de pepino japonês e de respirar. Adriana Partimpim era a trilha sonora de suas manhãs. Pegava no sono fácil. Desde pequena, tinha um desejo borbulhante: queria conhecer. Tudo, todas as coisas, todas elas. Não era a toa; até seu nome, ainda não conhecia. Nem a cor de seus cabelos. Seus cílios eram curtos ou longos? Pouco importava, por enquanto. Na barriga da mãe, esperava, pacientemente. Durante nove folgados meses de crise existencial.
Até do choro, sua primeira sensação experimentada, ela gostou. Após 4 anos de descobertas, chegou a conclusão de que chorar era melhor quando vinha de alegria. Mas não ligava. Desde pequena, não ligava para o ruim e o bom. Não ligava para futilidades - o comprimento dos cílios continuava irrelevante. Somente importava-se com suas expansões. Colonizava horizontes, explorava conhecimentos, extraía filosofias.
Desde pequena, desse jeitinho curioso, viveu. Oitenta e sete anos, e até ali, nada fugira da sua caixinha. Guardou tudo às 7 chaves. Aquela era sua felicidade. Desde pequena.
Todavia, faltava uma. Uma única! Esperava ansiosa por mais essa. E foi repentina. Surpreendente, apareceu num flash. A mulher sempre gostou de surpresas. Desde pequena. Só não fora melhor do que o nascimento. E fechou-se dentro da caixa, com suas alegrias... agora completas. Morte não fora para ela coisa ruim - pelo contrário. Fora a chave de ouro que completou a vida de Nina, uma constante descoberta.
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