Nunca houve por do sol tão laranja quanto aquele. Em meio à ondas prateadas e algumas gaivotas elegantes, estavam lá, os dois, atirados, com suas batas brancas, de mãos dadas. Enquanto observavam uma pipa atrevida ziguezaguear pelo céu rosado, um meio sorriso deu um novo desenho às bochechas queimadas de Lié. Como uma cobra prestes a dar o bote, saltou e correu, com as costas infestadas de areia, até a beirada mal enxugada do mar. O brilho da água refletiu nos seus olhos.
-- Caco! Vem cá, mor!
-- Que foi?
-- Corre aqui! Não, aqui, do meu lado. Vem!
Ele caminhou envolta dela, abaixou-se e olhou para o espelho de água.
-- Uau. A gente pegou muito sol hoje, hein mô?!
-- Sim, pegamos sim. Mas eu não estou falando disso. Olha, seu bobinho. A nossa imagem reflete nessa parte úmida da areia. Nós, juntinhos. Aí, um finzinho espumado de onda chega, bagunçando tudo. Olha, de novo! Não parece que ela está tentando separar a gente? Engraçado...
-- Parece?
-- Sim, eu acho! - e sorriu novamente, estampando duas delicadas covinhas ao lado dos dentes brancos.
-- Mas tem outra coisa. Pensa só. Toda vez que a onda chega, eu consigo ver seu brilho nos seus olhos! Mesmo a gente não refletindo na areia. Você consegue me ver, eu consigo te ver... mais linda ainda.
-- Coisa mais fofa! Eu vejo você, sim... mais vermelho ainda.
Após dois segundos, repentinamente, os dois levantaram. Pega-pega. Caco alcançou Lié, e a derrubou no chão, depois de uma luta brincalhona. Prendeu os braços da moça com suas mãos fortes. A onda, danada, quase avançou. Mas preferiu deixar a malícia de lado e voltar para o mar. As madeixas encaracoladas do casal se entrelaçavam com a brisa. Então, só o oceano pode testemunhar o beijo mais bem dado - ainda fresco da água de coco. A lua subia, convidando-os a voltarem para casa. E foram. Sozinhos, porém completos.
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