sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Manhã docinha

  Sábado. Desceu para o café. Na mesa, algumas panquecas acompanhadas de mel e um bom capuccino. A menina cortava uma melancia. O cheiro da chuva fundiu-se com o incenso. Deliciosamente, Juliana inspirou. E de novo, e de novo. Viver ficou mais gostoso, naquele minuto. A garoa cantava lá fora. Esquentou as mãos na fumaça da chaleira. E suspirou; que cheirinho bom!
  -- Melhor que ar puro.

Brrr

Uma coceira na nuca. Uma barba ralinha. Um nariz bem feito. Um fio de cabelo ruivo fazendo cócegas. Uma covinha. Uma falha no canto da sobrancelha. Uma imagem da noite passada. Um arrepio.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O passeio na chácara

   Só porque eu achei fofis.

  No passeio, primeiro a gente entrou no ônibus. Depois descemos do ônibus e colocamos a mala no nosso quarto. Comemos um lanchinho da mamãe e depois nós fizemos a corrida do saco, passa anel, batata quente e assistimos um filme.
  Depois cortamos tomates para o almoço. Almoçamos e vimos outra sala se preparando para a trilha. Fomos para uma salinha ver TV, mas ela não funcionou. 
  Depois a professora Regina cortou o saco de lixo para a gente fazer o passeio ecológico e a trilha do professor Cézar. Daí a gente se arrumou, saímos para o ônibus e chegamos na escola. E ficamos felizes. Fim.


 Por Ludmila de Melo Jusevicius

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Bem-te-vi(ra)

  Leitor. Você é paraplégico.
  Dois minutos para tirar qualquer movimento das pernas. Sua vida acontece do tronco para cima. Sua cadeira de rodas tem um adesivo engraçado. Você gosta disso. Não deixe-a conforme o texto segue. Ela só pode parar de existir - e rodar - depois do ponto final.
  Trilha sonora do conto: http://www.youtube.com/watch?v=n-jxbF_x40A (escute baixinha).
  Pronto?

  Os olhos eram bonitos. Donos de um azul quase cinza. Próximos à pupila, havia alguns traços amarelados. O olhar, suspeito. Não mau; profundo. Interpretá-los era uma tarefa complicada. Mesmo que parecesse, por vezes, superficial, como num sorriso de despedida num caixa de supermercado... por trás dele, existia uma longa história - por sua vez, nunca contada à ninguém. Observava as pessoas ao seu redor. Gostaria de saber o que se passava em suas borbulhantes cabeças. Era um moço de boas feições. Se fosse um pouco mais ajeitado, poderia trabalhar como modelo. Porém, preferia suas ondas loiras com frizz, presas numa bandana branca ou vermelha. Gostava de suas roupas de estilo meio hippie, meio nerd. E do seu cigarro costumeiro.
  Subiu para seu apartamento - graças ao horário de verão, na hora certa. Hora H: um filhote de bem-te-vi assobiava na varanda coberta por trepadeiras. Uma bagunça, uma bagunça. Os cômodos não eram separados por divisórias, a não ser a suíte e o pequeno estúdio. No chão, um bolo de camisetas amassadas, as quais usava para trabalhar. Algumas, até inadequadas para isso: estampadas com super heróis, quadrinhos ou desenhos de animais. Agora, usava uma de corte manual e mal feito. O dia era quente. A regata juntou-se ao bolo. Os livros faziam filas desengonçadas nas estantes. Na velha mesa redonda, restos de pacotes de fast-food, da noite anterior. Uma rede avermelhada atravessava a sala, de ponta a ponta. O relógio gritou: 17:40h. Finalmente.
  Rafael dirigiu-se para o estúdio. Era muito bom no que fazia. E raro. Mas escondia sua arte. Não por ser tímido: apenas queria saber das intenções das pessoas, sem que antes conhecessem suas incríveis habilidades. Queria saber dos pré-conceitos.
  Ser cadeirante nunca lhe causou desgosto - pelo contrário. Era absurdamente feliz com sua vida sobre duas rodas. Além disso, tinha melhores ocupações do que reclamar das circunstâncias. O que despertava um pouco de revolta - ou estranheza - eram os outros. Ou melhor, a ignorância dos outros. O pensamento bitolado dos outros. Então, preferia reservar-se para seus poucos e bons amigos. Aqueles que continuaram da infância. De vez em quando, conhecia alguns camaradas pelos cafés que frequentava. E os acrescentava. Também o fazia com as pequenas coisas que encantavam-no.
  Já havia gravado 5 discos, todos com 9 composições suas. Nada como seu violão, uma boa acústica, um gramofone. E voz. Apreciava muito seu timbre rouco. Conservava isso como o maior bem que possuía. O rapaz não possuía, simplesmente, tudo aquilo; ele era, sentia. Digeria cada música que compunha. Começou mais uma. Dia de criação. O passarinho ainda cantava. O sol descia. O entardecer crescia. As luzes ligavam, os carros corriam, as mariposas apareciam, os carteiros voltavam para casa, os recepcionistas voltavam para casa. O relógio tic-taqueava. Apesar de todos os barulhos, ele concentrava-se. Hora de compor.
  Um mundo inteiro em câmera rápida: apressado, preocupado, acontecendo, caminhando. E ali estava Rafael: sentado. Mas não esperando: cantava, ao som do violão e do bem-te-vi. Sentia a brisa que entrava pela fresta da janela de madeira. Fumava, de pouco em pouco, sua piteira cotidiana. Vestia suas roupas largadas. Não tinha sede de sobreviver; ele vivia: cada segundo, cada um. Com cada um dos seus membros - do tronco para cima.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Vai de vento

  -- Talvez em 2340.
  -- Que ideia! Vê se pode.
  -- Ué, nós podemos, Bia. 
  -- Que ideia Ju. As coisas vão estar horríveis pr'esses tempos.
  -- Pra onde cê quer ir, então?
  -- Não sei. talvez se a gente voltasse pra década de 60. Tudo tão mais alegre! Vamos pra Nova York. Pra Paris, é claro! Cidade Luz, coisa mais linda. Ouvi dizer que lá, as mulheres caminham como se dançassem, e os mendigos falam em francês. Que elegancia, hein? Qualquer lugar cult, qualquer época antiga. Menos pro futuro.
  -- Isso é retro por demais. Ainda acho que 2340 seria mais empolgante. Meu sonho - meu maior! É ter uma fábrica de chicletes no lugar da pani, da esquina aqui de casa. Pensa na tecnologia! Pensa no futuro, Bi, qualquer lugar futuro.
  -- Muita viagem, essa tua.
  -- Ironia, é?
  -- Né não. Chega desse bullshit. Entra nessa engenhoca, e vamos ver no que dá.
  -- Tá, tá. Botão de "aleatório".

  E deixa levar.

Suspire

Sutileza. Não é comum. Não é popular. Não é salgada. Não é vulgar. É só assim: como uma folhinha seca caindo no outono. Como as costelas da bailarina. O doce leve do arroz doce. A garoa no fim de tarde. O soninho do bebê. Na própria palavra, ela mesma; sutil.

domingo, 9 de outubro de 2011

Eureka

  Nina era de poucos amigos. Bastante encolhida. A menina nunca sabia o que dizer. Gostava de brigadeiro morno, de pepino japonês e de respirar. Adriana Partimpim  era a trilha sonora de suas manhãs. Pegava no sono fácil. Desde pequena, tinha um desejo borbulhante: queria conhecer. Tudo, todas as coisas, todas elas. Não era a toa; até seu nome, ainda não conhecia. Nem a cor de seus cabelos. Seus cílios eram curtos ou longos? Pouco importava, por enquanto. Na barriga da mãe, esperava, pacientemente. Durante nove folgados meses de crise existencial.
  Até do choro, sua primeira sensação experimentada, ela gostou. Após 4 anos de descobertas, chegou a conclusão de que chorar era melhor quando vinha de alegria. Mas não ligava. Desde pequena, não ligava para o ruim e o bom. Não ligava para futilidades - o comprimento dos cílios continuava irrelevante. Somente importava-se com suas expansões. Colonizava horizontes, explorava conhecimentos, extraía filosofias.
  Desde pequena, desse jeitinho curioso, viveu. Oitenta e sete anos, e até ali, nada fugira da sua caixinha. Guardou tudo às 7 chaves. Aquela era sua felicidade. Desde pequena.
  Todavia, faltava uma. Uma única! Esperava ansiosa por mais essa. E foi repentina. Surpreendente, apareceu num flash. A mulher sempre gostou de surpresas. Desde pequena. Só não fora melhor do que o nascimento. E fechou-se dentro da caixa, com suas alegrias... agora completas. Morte não fora para ela coisa ruim - pelo contrário. Fora a chave de ouro que completou a vida de Nina, uma constante descoberta.
 "E por fim, aqueles que são iluminados e os que não o são irão se unir. Não mais olhares de desprezo, não mais o temor do povo em relação a seus sábios e sacerdotes. Nenhuma capacidade será mais reprimida: reinará uma geral liberdade e igualdade de espíritos! Será a extrema, a mais alta obra do homem."


 -- Georg Wilhelm Friedrich Hegel, em Diálogo sobre a poesia, 1821.

Verbetes

Cogumelo açúcar agridoce lajota estrume gelado cubinho brilhante ameba ziriguidum chuvisco trouxinha caramelo jabuticaba foguete faísca sabão gelatina pudim castanhola melíflua translúcido charme anymore chumbrega pergunta swag Lúcia estilingue cup of tea groduxo sutil magenta Doralice laivos fragrância frivolidade talco material purpurina desmanchar papiro fonema nuvem prestígio capricho biscoito granito bloco reciprocidade caixola foguete polivox, polivox, polivox...

Amelie

 Via o mundo com os olhos de um extraterrestre. Não entendia muito bem os adultos, seu modo de rir escandalosamente, de reclamar do arroz aquoso e conversar sobre o final da novela. De encontrar alegria em um sapato alto, que deveria ser mais desconfortável do que feliz. Preferia ficar quietinha. Dentro do seu mundo isolado, ocupava-se com atividades um tanto quanto estranhas: observava o caminhar das formigas na borda da janela, imaginava corridas de pingos durante dias chuvosos, desenhava monstros e seres esquisitos em fotografias. Estranhas, porém divertidas, na sua opinião.
  Julho era um mês tedioso. Não havia muitas coisas para serem feitas. Na segunda semana de férias, decidiu experimentar algo diferente. A rotina enjoava, cansava suas pernas fofinhas. Mas não sabia ao certo o que. Afinal, não se podem experimentar muitas coisas aos seis anos de idade. Pensou durante alguns minutos. Nada produtivo. Construiria uma casa na árvore? Não tinha ideia de como fazê-lo. Inventaria uma nova receita de bolo? Seis anos de idade realmente não revelavam a ela habilidades como cozinhar ou planejar casas. Após algumas horas, a ideia apareceu: iria explorar o mundo. Perfeito! Será que lá fora, longe de casa, haveria de fato reis e rainhas, fadas e gigantes? Por volta das três da tarde, enquanto sua mãe, Carolina, passava as camisas recém lavadas, abriu a porta. E foi.
  Sua fascinante admiração por personagens fantásticos, aos poucos, foi sendo ofuscada. As pessoas eram realmente muito mais incompreensíveis do que qualquer outro ser. Sem saber para onde ia, passava por locais de grande alvoroço. Alguns tinham letreiros grandes e chamativos. Dentro deles, multidões de mulheres percorriam as prateleiras e cabides com os olhos, agarrando com determinação vestidos e sapatos. Muitas saíam carregando inúmeras bolsas, com um grande sorriso estampado no rosto. Outras reclamavam. Em outros lugares, homens se divertiam com cerveja e pastéis engordurados. Muitos se comunicavam através de celulares, apressados, dizendo palavrões e gritando. Ela não gostava disso. Tampou os ouvidos.
   As pessoas iam passando e levando a tarde ensolarada. Começava a escurecer. Nada de príncipes ou sapos falantes. Apenas aqueles suspeitos e cansativos indivíduos, com seus afazeres incontáveis. Cansou de explorar. Quis a mãe. Quis o café da tarde. E não conhecia ninguém a sua volta. "Devo estar na China" - pensou. Seu pai vivia dizendo que fadas não existiam "nem aqui, nem na China".  Ela também não viu fadas. "Estou perdida".
  Pouco a pouco, as lágrimas geladas começaram a escorrer. Lembrou de algo que fazia toda noite. "Papai do céu. Obrigada pela mamãe, pelo papai e pelo mano. Obrigada pelo almoço, pelo chocolate e por Você existir. Boa noite! Tchau, Papai do céu." Era um agradecimento que a deixava tranquila. Talvez, se orasse agora, Jesus a ajudaria. Então, sentou-se na calçada. E ali, sozinha, deslocada, a pequena pediu por auxílio. Precisava de uma voz que a confortasse. A noite crescia. O escuro também. Seis horas. Seis e meia, e nenhuma voz. Levantou-se, e com o nariz vermelhinho do choro, resolveu tentar encontrar o caminho de volta. Já que Papai do céu não estava ali com ela, conforme costumava a acreditar. Desamparada. As diferentes casas que conhecia poderiam ajudá-la a reconhecer as ruas. Tomou rumo. Os passos incertos que dava revelavam-na caminhos conhecidos. Avistou a casa de Tomé, seu colega da escola. E isso ela sabia. Andou por volta de meia hora. Cada minuto que passava trazia algo familiar. Sentiu, de repente, algo que a convidava - de forma sobrenatural, talvez - a virar à esquerda. Assim fez. Um sorriso imenso surgiu em seu rostinho branco: sua mãe a esperava no portão de casa. "Encontrei!", explodiu ela, num grito de alívio. Correu e pulou nos braços da mãe. As duas choravam. "Fiquei desesperada atrás de você, danadinha" - disse Carolina. Na hora de dormir, não se esqueceu de voltar à rotina:


  -- Papai do céu. Obrigada por esse dia. Não vi nenhum príncipe encantado, nenhuma bruxa malvadona. Mas eu vi que Você me trouxe pra casa. Não ouvi a sua voz. Mas Você me guiou! Igualzinho como fez com os reis magos, quando mostrou a estrela pra eles. Obrigada Jesus...
 "O Senhor é o adulto mais mágico que eu conheço.  Te amo!"


 (dupla com Anna K. F.)
"Não era extraordinário estar viva naquele momento e ser personagem de uma aventura maravilhosa como a vida?"
 -- O mundo de Sofia.

Bochechas queimadas

  Nunca houve por do sol tão laranja quanto aquele. Em meio à ondas prateadas e algumas gaivotas elegantes, estavam lá, os dois, atirados, com suas batas brancas, de mãos dadas. Enquanto observavam uma pipa atrevida ziguezaguear pelo céu rosado, um meio sorriso deu um novo desenho às bochechas queimadas de Lié. Como uma cobra prestes a dar o bote, saltou e correu, com as costas infestadas de areia, até a beirada mal enxugada do mar. O brilho da água refletiu nos seus olhos.
  -- Caco! Vem cá, mor!
  -- Que foi?
  -- Corre aqui! Não, aqui, do meu lado. Vem!
  Ele caminhou envolta dela, abaixou-se e olhou para o espelho de água.
  -- Uau. A gente pegou muito sol hoje, hein mô?!
  -- Sim, pegamos sim. Mas eu não estou falando disso. Olha, seu bobinho. A nossa imagem reflete nessa parte úmida da areia. Nós, juntinhos. Aí, um finzinho espumado de onda chega, bagunçando tudo. Olha, de novo! Não parece que ela está tentando separar a gente? Engraçado...
  -- Parece?
  -- Sim, eu acho! - e sorriu novamente, estampando duas delicadas covinhas ao lado dos dentes brancos.
  -- Mas tem outra coisa. Pensa só. Toda vez que a onda chega, eu consigo ver seu brilho nos seus olhos! Mesmo a gente não refletindo na areia. Você consegue me ver, eu consigo te ver... mais linda ainda.
  -- Coisa mais fofa! Eu vejo você, sim... mais vermelho ainda.
  Após dois segundos, repentinamente, os dois levantaram. Pega-pega. Caco alcançou Lié, e a derrubou no chão, depois de uma luta brincalhona. Prendeu os braços da moça com suas mãos fortes. A onda, danada, quase avançou. Mas preferiu deixar a malícia de lado e voltar para o mar. As madeixas encaracoladas do casal se entrelaçavam com a brisa. Então, só o oceano pode testemunhar o beijo mais bem dado - ainda fresco da água de coco. A lua subia, convidando-os a voltarem para casa. E foram. Sozinhos, porém completos.