Via o mundo com os olhos de um extraterrestre. Não entendia muito bem os adultos, seu modo de rir escandalosamente, de reclamar do arroz aquoso e conversar sobre o final da novela. De encontrar alegria em um sapato alto, que deveria ser mais desconfortável do que feliz. Preferia ficar quietinha. Dentro do seu mundo isolado, ocupava-se com atividades um tanto quanto estranhas: observava o caminhar das formigas na borda da janela, imaginava corridas de pingos durante dias chuvosos, desenhava monstros e seres esquisitos em fotografias. Estranhas, porém divertidas, na sua opinião.
Julho era um mês tedioso. Não havia muitas coisas para serem feitas. Na segunda semana de férias, decidiu experimentar algo diferente. A rotina enjoava, cansava suas pernas fofinhas. Mas não sabia ao certo o que. Afinal, não se podem experimentar muitas coisas aos seis anos de idade. Pensou durante alguns minutos. Nada produtivo. Construiria uma casa na árvore? Não tinha ideia de como fazê-lo. Inventaria uma nova receita de bolo? Seis anos de idade realmente não revelavam a ela habilidades como cozinhar ou planejar casas. Após algumas horas, a ideia apareceu: iria explorar o mundo. Perfeito! Será que lá fora, longe de casa, haveria de fato reis e rainhas, fadas e gigantes? Por volta das três da tarde, enquanto sua mãe, Carolina, passava as camisas recém lavadas, abriu a porta. E foi.
Sua fascinante admiração por personagens fantásticos, aos poucos, foi sendo ofuscada. As pessoas eram realmente muito mais incompreensíveis do que qualquer outro ser. Sem saber para onde ia, passava por locais de grande alvoroço. Alguns tinham letreiros grandes e chamativos. Dentro deles, multidões de mulheres percorriam as prateleiras e cabides com os olhos, agarrando com determinação vestidos e sapatos. Muitas saíam carregando inúmeras bolsas, com um grande sorriso estampado no rosto. Outras reclamavam. Em outros lugares, homens se divertiam com cerveja e pastéis engordurados. Muitos se comunicavam através de celulares, apressados, dizendo palavrões e gritando. Ela não gostava disso. Tampou os ouvidos.
As pessoas iam passando e levando a tarde ensolarada. Começava a escurecer. Nada de príncipes ou sapos falantes. Apenas aqueles suspeitos e cansativos indivíduos, com seus afazeres incontáveis. Cansou de explorar. Quis a mãe. Quis o café da tarde. E não conhecia ninguém a sua volta. "Devo estar na China" - pensou. Seu pai vivia dizendo que fadas não existiam "nem aqui, nem na China". Ela também não viu fadas. "Estou perdida".
Pouco a pouco, as lágrimas geladas começaram a escorrer. Lembrou de algo que fazia toda noite. "Papai do céu. Obrigada pela mamãe, pelo papai e pelo mano. Obrigada pelo almoço, pelo chocolate e por Você existir. Boa noite! Tchau, Papai do céu." Era um agradecimento que a deixava tranquila. Talvez, se orasse agora, Jesus a ajudaria. Então, sentou-se na calçada. E ali, sozinha, deslocada, a pequena pediu por auxílio. Precisava de uma voz que a confortasse. A noite crescia. O escuro também. Seis horas. Seis e meia, e nenhuma voz. Levantou-se, e com o nariz vermelhinho do choro, resolveu tentar encontrar o caminho de volta. Já que Papai do céu não estava ali com ela, conforme costumava a acreditar. Desamparada. As diferentes casas que conhecia poderiam ajudá-la a reconhecer as ruas. Tomou rumo. Os passos incertos que dava revelavam-na caminhos conhecidos. Avistou a casa de Tomé, seu colega da escola. E isso ela sabia. Andou por volta de meia hora. Cada minuto que passava trazia algo familiar. Sentiu, de repente, algo que a convidava - de forma sobrenatural, talvez - a virar à esquerda. Assim fez. Um sorriso imenso surgiu em seu rostinho branco: sua mãe a esperava no portão de casa. "Encontrei!", explodiu ela, num grito de alívio. Correu e pulou nos braços da mãe. As duas choravam. "Fiquei desesperada atrás de você, danadinha" - disse Carolina. Na hora de dormir, não se esqueceu de voltar à rotina:
-- Papai do céu. Obrigada por esse dia. Não vi nenhum príncipe encantado, nenhuma bruxa malvadona. Mas eu vi que Você me trouxe pra casa. Não ouvi a sua voz. Mas Você me guiou! Igualzinho como fez com os reis magos, quando mostrou a estrela pra eles. Obrigada Jesus...
"O Senhor é o adulto mais mágico que eu conheço. Te amo!"
(dupla com Anna K. F.)
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